domingo, 2 de novembro de 2008

Quase verdades e meias mentiras – 35º dia – 10h56 brasil, 14h58 local Haifa, Israel pela última vez.

Olá marujos!

Desculpem por não estar escrevendo diariamente, mas é que você vai tendo algumas prioridades e tentando experimentar mais coisas e acaba se privando de outras. Isto é comum.

Hoje eu gostaria de falar algumas coisas que não acontecem e que o pessoal do Brasil ouve falar muito das agências. Como vocês sabem eu vim pela a minha agência é a Infinity em Santos/SP. Pois bem, aqui no navio você encontra muita gente de vários lugares, a maioria é de Santos, mas tem um pessoal de Fortaleza e até do Sul do país.

Trocando uma idéia por aqui e comparando informaões, descobre-se que nós somos enganados pelas nossas agências. Primeiro ponto é que a passagem NÃO é cobrada. Ela é enviada pela MSC para a agência e teoricamente deveria só reencaminhar para o tripulante.

Acontece que eu, assim como vocês, fomos enganados e assim a agência faz o preço dela em cima da passagem. O pessoal de Fortaleza não paga 600 reais para vim para cá. No total eles gastaram em média 1.000 reais com despesas totais, incluindo roupas e etc. Eu gastei 3,5 vezes mais.

STCW não é obrigatório. No navio você é descontado no salário novamente para fazer todos os cursos e é rídiculo (de absurdo e fácil). Acontece que para se livrar do STCW você precisa embarcar em outro país.

Anti-dopping é um meio que as agências tem para tirar ainda mais dinheiro de nós. O exame é pedido, mas se não tiver não há problema. Todos os exames se você não tiver em ordem é realizado aqui dentro. Aliás, até a vacina de febre amarela é aplicada dentro do navio.
O tempo de contrato mínimo é indeterminado. Veja só, especialmente para este cruzeiro de Israel, foram contratados durante 1 mês. 1mês. Uma equipe de italianos. Alguns tinham trabalhado antes em navio, a grande maioria não.

No Brasil, a galera do nordeste fechou na grande maioria contratos de 6 meses para funções iguais a minha. Tem gente entretanto, principalmente indonesianos e italianos, que estão a pelo menos 1 ano no navio direto, alguns vão ficar ainda mais tempo.

Prestem muita atenção nisso agora. Imaginem uma grande empresa com várias filiais. Cada filial tem um diretor administrativo e sua hierarquia certo? A mesma coisa acontece no navio. Cada navio é uma empresa diferente e cada diretor administrativo (Capitão) tem um estilo de administrar.

No caso da MSC o Harmonia não é melhor que o Sinfonia que não é melhor que o Música que não é melhor que o Fantasia. São todos iguais com estilos diferentes, algumas particularidades e semelhanças, mas pára por aí.

Por tanto um navio menor tem menos gente portanto menos picos de estresses, porém a fiscalização é mais apertada e não dá para fazer muita coisa “errada” (leia-se sobreviver) como aqui no Música que é um navio muito grande e é mais fácil dar uns perdidos.

Alguns locais que eu descobri na realidade para quê serve. Proa do navio para ficar de boa e tomar sol; Cochia do teatro para transar com alguém sem muitas interferências; Buffet/Restaurante para comer comida boa; Bar para tomar refrigerante e agua decente; Popa do navio para sair na porrada; Piscina/ Discoteca/Cabine para se divertir e assim vai. Mas lembre-se que todos estes esquemas dependem de horário e fiscalização.

Galera do restaurante essa é especial para vocês. Dica do meu waiter indonesiano. Um navio NÃO é um hotel 5 estrelas. Aqui você tem que pensar em você em primeiro lugar. Sirva rápido, atenda rápido, limpe rápido, arrume rápido e termine rápido para você ter mais tempo para dormir ou comer.

Mesmo na correria é possível prestar um bom serviço mesmo assim. O Marabaya não concorda (meu waiter), com essa idéia, mas ser educado é um tipo de serviço e isso vale muito. Tanto que eu sei atender (dar olá, bom dia, como vai, etc) em português, inglês, hebreu e indonesiano. Perde-se 15 segundos a mais, mas vocês não imaginam como isso vale para o passageiro.

Brigas e discussões são frequentes aqui dentro. Motivo: falhas na comunicação + orgulho doído em 99% das vezes. Os outros 1% se devem a comportamento mau cárater mesmo. Vou dar um exemplo para vocês.

Iran é (era) um brasileiro que veio do RN para cá. Entrou aqui na minha segunda semana. O Iran é um cara que todos dizem que bebia muito e ia em todas as festas de cabine. O trabalho dele era carregar café e leite no troller (um carrinho de carga) entre as cozinhas do restaurante O´Leandro, Maxim´s e o Buffet.

Nestas 2 semanas pelo que eu sei ele ficou sem dormir muito e chapando. Até que um dia ele saiu na mão com um hondurenho, o Alberto, cozinheiro coroa, nos seus 40 e poucos anos, gente boa que virou meu amigo.

Enfim, o Alberto levou a porrada, caiu no chão, fez uma cena e chamou todos os oficiais e o capitão. Nisso o Iran saiu fora para pegar mais coisas. Como ele, o Alberto, já está aqui a mais tempo, já sabia das manhas, quando o Iran voltou para o buffet estavam todos os oficiais lá. Desembarcou em Kos, na Grécia.

Tripulantes que estão em final de contrato ou vão ficar por muito pouco tempo (de 1 a 3 meses) são perigosos por que eles tocam o putero mesmo. Principalmente os italianos. Então tomem cuidado para não desembarcar por bobagem.

Para eles fodam-se, a maioria já é conhecida e está em fim de contrato, se fizerem burrada eles vão pesar os prós e os contras de todo o período de contrato e se desembarcarem, depois de um tempo acabam voltando e a carreira continua. Os mais novos se fizerem besteira não perdem o contrato, perdem a carreira, então mais uma vez, tomem cuidado.

Para os que estão ou vão começar agora, o mais difícil de tudo é a primeira semana por causa das dores em mãos, pés, ombros e costas. Depois da 3ª semana começa a passar (como se fosse uma musculação) e você se sente melhor. É possível transforamr isso numa carreira sim e vale a pena.

Dependendo de como eu me sair nesse contrato, penso seriamente em voltar e aí a profecia do meu amigo Giba se concretiza e talvez eu não volte tão cedo pra casa. Quer dizer, quando o navio for para o Brasil eu vou também, mas ainda tenho meus planos e o navio é um meio bom de concretizar os meus que é conhecer o mundo e ser milionário.

Ah, pai! Eu consegui um vinho de Israel especialmente para você! É um vinho que o pessoal kosher (judeu ortodoxo) só toma no sábado, que é o dia sagrado dos judeus. Tá fechado aqui na minha cabine. Sabbat Shalom!

Então gente por hoje é só. Temporada de Israel está acabando e depois é fazer o esquema da travessia e ir para casa. Ainda dá tempo de aprender algumas coisas em hebreu.

Até mais marujos!

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