quinta-feira, 26 de março de 2009

Sábado, dia 21 de Março de 2009

13h01 em Salvador pela última vez.
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Sim, estamos na Travessia. Nem pensei que esse dia fosse chegar e por mais que tenha demorado tanto, passou tão rápido. Não sei quanto aos outros mas eu já sinto tudo diferente. As pessoas que desde que chegamos ao Brasil estavam de boa, agora já tratam de forma diferente, os chefes parecem mais rígidos e tudo começa novamente.
Não dá pra negar que os passageiros brasileiros dão mais trabalho, são mais folgados, sempre chegam atrasados e é aquela velha história do “Tô pagando” mas em compensação a exigência é menor e o ambiente é bem mais descontraído.
No último Santos (18 de março) foi o primeiro dia da Travessia mas ainda tinha pouquíssimos passageiros a bordo, já no dia seguinte no Rio embarcaram bastante gente e aí considero minha primeira vez no restaurante com a realidade da Europa e tenho que confessar que eu estava apavorada. APAVORADA. Eu estava gelada e tremia muito.
Meu primeiro sitting só tive uma mesa de brasileiros, as outras 4 eram estrangeiros, um casal de idosos e um homem adulto australianos, uns 6 alemães e 2 austríacos.
Tive que servir o pão na mesa, coisa que no Brasil nem precisava, e porra dá o maior trabalho, eu não tenho firmeza pra pegar o pão que fica caindo, é muito ruim, e depois pra oferecer bebida, beleza, o duro era entender o que eles queriam. E muito vinho. Odeio servir vinho, tenho medo de abrir e eu não vou abrir. Foi tudo meio confuso nesse dia. O menu não é difícil mas tem mais opções de comida então é realmente importante ler o menu antes de começar e identificar as comidas na cozinha.
No final do primeiro sitting, desejei muito que meu segundo sitting fosse só de brasileiros e Deus ouviu minhas preces, só brasileiros, e um senhor da Inglaterra mas que é casado com uma brasileira e ele fala português. Ai foi bom.
No segundo dia do restaurante tudo foi um pouco mais fácil e eu estava com menos medo, cheguei mais na mesa e até tentei conversar um pouco, mas bem pouco. Eu sorrio o tempo todo e sou simpática mas esses estrangeiros tem cara de bravos, principalmente os alemães. São frios e dificilmente sorriem pra você.
No Buffet é a mesma coisa. Ainda mais na coffee station (onde eu fico agora). Lá tenho mais contato com passageiros porque eu os sirvo diferente das linhas que só tenho que repor e tal. Lá eles pedem. Nesses últimos cruzeiros eu quase surtei lá porque o brasileiro é mal educado, não tem paciência, não sabe esperar e só reclama. Me puxavam pela manga da blusa, era moça pra cá e pra lá o tempo todo, não dava pra respirar. Acho que deve ser difícil de entender que só tenho 2 mãos.
Já agora na travessia os estrangeiros sabem esperar, pedem com calma e tranqüilidade,a única coisa mais complexa é entender um pouco o que eles querem. Durante esses dias já vi muita coisa diferente, chá com leite frio, chá com leite quente, suco misturado com água quente, café com pó de chocolate. Se pensar assim é fácil, o difícil é entender o jeito que eles pedem. Mas agora é mais legal trabalhar na coffee station. A maioria das pessoas são simpáticas e confesso que até os brasileiros na travessia estão mais educados, as velhinhas estrangeiras sorriem e algumas até brincam. Quando eu vejo que alguém dá abertura eu puxo uma conversa bem básica e curta.
Hoje meu horário mudou. Agora não precisa mais trabalhar 10,5h por dia, agora não tem mais leis brasileiras, agora são em média 13h, o que eu realmente não entendo porque já que o navio sempre terá mesma capacidade pra passageiros, o mesmo numero de tripulantes. Se no Brasil funciona 10,5h porque lá fora não? Acho que é querer explorar mesmo, mas fazer o que?
O Daniel disse que agora eu vou entrar 7h30 da manhã e sair as 14h30 e depois volto as 18h e saio 00h. Mas quero ver mesmo se vou fazer isso. Hoje quando fechou a coffee station eu limpei tudo e desci era 10h30 mais ou menos, fiquei na cabine até as 11h30, voltei pra lá, ajudei a montar o almoço e fiquei um pouco lá enrolando. Vim pra cabine umas dez pra meio dia.
Vou ver se faço isso sempre, vamos ver se dá. O restaurante abre mais cedo agora. Abre 18h45 o primeiro sitting e 21h15 o segundo. É melhor. Dá pra terminar bem mais cedo. Ontem era umas 22h30 eu já tinha terminado tudo.
Eu preciso descansar um pouco agora. Tenho dormido muito mal a noite. Eu sonho o tempo todo que preciso voltar pro restaurante e é muito real. Já cheguei a sentar na cama pra me arrumar pra ir pro restaurante, mas eu não tenho força.
E ontem eu ainda assisti o primeiro capítulo do Heroes até 1h40 da madruga. Tô cansada.
Preciso descansar ainda enquanto eu posso, porque depois lá fora, só Deus sabe o que me espera.
Rezem por mim e pelo Igor. Torçam por nós.
Vou sentir saudades. Amo vocês.

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